quinta-feira, 12 de abril de 2012

"Deixe o Jovem Pensar!"



É fato que o jovem de hoje está claramente mais acomodado e mais ausente em relação à política de nosso país. Contudo, sendo eles fruto de uma geração que muito lutou por seus direitos, será que esse comodismo é realmente culpa deles?

Posso afirmar que não, ao menos não totalmente. A geração batalhadora de antigamente hoje cria seus filhos para que não tenham que sofrer tanto como eles sofreram, vivem com o intuito de estar sempre dando o melhor que podem aos seus descendentes. Seria hipocrisia reclamar do adolescente que se abstém da política quando a própria sociedade o cria num universo protegido.

Os jovens precisam tirar essa venda imposta a eles e perceber que o que eles se acostumaram a chamar de “liberdade”, é na verdade a oportunidade conquistada por seus pais e avós para que hoje nós pudéssemos brigar por nossos direitos sem corrermos o risco de sermos torturados, exilados ou mortos. É a chance que eles nos deram para que continuássemos a busca por um Brasil melhor.

Atualmente, são poucos os jovens que, assim como eu, se importam em mudar o mundo, ou pelo menos chegar perto disso. O sonho não acabou. Ele está guardado dentro de cada um, jovem, adulto ou idoso, que acredita que ainda podemos dar ao nosso país um futuro que ele realmente merece. O sonho está seguro, e ainda vivo no coração de poucos, que esperam ansiosamente o momento de passá-lo adiante.

Uma Breve História da Morte



Instantes após surgimento da Vida... Surge a Morte. O tempo foi passando e seres cada vez mais complexos foram aparecendo, não demorou e logo os humanos já haviam dominado o mundo. Com o passar dos séculos a humanidade foi evoluindo, a Vida e a Morte sempre ao lado foram se personificando e adquirindo características quase humanas.

E aqui nossa história começa. Acho interessante fazer uma breve explicação, Vida e Morte podem estar em vários lugares ao mesmo tempo, então acho bom acreditarem na história que aqui relato, pois, sem que saiba, “Ela” pode estar ao seu lado te observando, como está ao meu, me dizendo o que tenho que escrever. De volta ao que importa.

Morte estava sentada na janela do 14° andar do Empire State. Usava um vestido branco, feito de algum tecido desconhecido por nós, humanos, que ia até pouco acima dos joelhos, seus olhos verdes se destacavam na pele pálida. O cabelo loiro e liso perfeitamente arrumado a frente dos ombros fazia com que a confundíssemos com o que alguns chamam de anjo. Contudo, a foice, de cerca de um metro de comprimento, com a lamina negra contradizia a imagem de anjo.

Estrategicamente posicionada Morte apenas esperava que a meia noite chegasse. Ela olhava ansiosamente para o céu, apesar dos inúmeros relógios na cidade ela preferia se orientar pela lua. Não faltava mais do que dez minutos para meia noite e Morte ainda não havia tomado a sua decisão.

Há meses durante um incêndio em que esteve presente Morte se deparou com algo que não podia enfrentar. Era um dia normal, numa família normal, quando, por acidente a mãe esqueceu a lareira acessa, não demorou muito e toda a casa estava em chamas. O pai e a mãe correram para o ultimo andar com o bebê, tentaram desesperadamente pedir ajuda para algum vizinho, mas era inevitável, desde o começo do incêndio a foice já havia sido passada. Não que Morte gostasse de levar a alma das pessoas (infelizmente não posso dizer para onde), mas após milhares de anos mantendo o equilíbrio ela já estava acostumada.
Preparava-se para abandonar o local, os bombeiros já tinham apagado o fogo, os corpos estavam sendo retirados, quando um garoto de 17 anos, deduzira ela, sai da casa. Tinha lágrimas nos olhos, o cabelo queimado, e o rosto sujo. Os bombeiros o socorreram e ele foi levado dali, mas Morte não esquecera seu rosto.

Desde então Morte começara a acompanhar cada passo do jovem, sentia vontade de levá-lo, de retirar de uma vez só a alma de seu corpo. Sabia que não poderia fazer isso, era contra as regras, mas a cada dia que se passava a ideia se fortalecia em sua mente.

Os relógios de Nova York apitaram, era meia noite, e Morte havia tomado a sua decisão. O garoto estava saindo do prédio, trabalhava lá, e sem pensar duas vezes ela se jogou do prédio com a lamina estendida, pronta a atravessá-lo, diriam que o jovem sofreu de uma parada cardíaca hereditária e que morreu, em frente ao Empire State antes que o socorro jogasse.

Faltavam apenas alguns metros para que a lâmina atingisse o garoto, quando um clarão, que só a Morte pode ver, a interceptou. O garoto que estava perto desmaiou de repente, sem que ninguém soubesse o porquê. Ou melhor, sem que nenhum humano soubesse o motivo.

Morte se ajeitou, e ficou de pé para encarar o ser que agora olhava fixamente para ela. Era alta, usava calças jeans e uma jaqueta preta de couro, botas da mesma cor de que a jaqueta cobriam seus pés. Os cabelos castanhos e encaracolados formavam um rabo de cavalo, o rosto moreno e os olhos cor de mel lhe proporcionavam uma beleza indescritível. Levava consigo uma foice, que diferente da foice de Morte possuía uma lamina prateada.

- Vida. – disse Morte já pensando no sermão que iria ouvir.

Pessoas começavam a se aglomerar em volta do jovem desmaiado.

- Você não tem o direito de levá-lo por sua vontade, você apenas encaminha as almas, a natureza diz quando elas devem ir. – Se os humanos pudessem ouvir tenho certeza que teriam todos ficados encantados com a voz de Vida.

- Uma alma a mais ou a menos não vai fazer diferença! – gritou Morte em resposta.

- O garoto merece a chance de viver. – disse Vida seriamente.

Morte gritou, seu grito ecoou por toda estrutura do prédio. Os olhos cheios de lágrimas foram a ultima coisa que Vida viu antes que ela desaparecesse. Vida foi até o garoto e encostou sua foice em seu peito, quase que imediatamente ele abriu os olhos.

Morte agora se encontrava num quarto escuro, seu cérebro trabalhava desesperadamente numa tentativa vaga de mantê-la presa a razão. “O garoto merece a chance de viver”.  Foram essas as palavras de Vida, mas Morte sabia muito bem que elas não diziam apenas isso. Não havia como vencer, ainda com lágrimas nos olhos ela esticou sua foice e num movimento rápido a atravessou em seu peito.

O dia transcorreu bem para todos, exceto para Vida, ela realizou normalmente seus afazeres, dando a vida a cada ser vivo que nascia e curando todos aqueles que a natureza lhe indicava. Já era quase meia noite quando reparou que não havia cruzado uma vez se quer com Morte em seu dia hoje. O medo recaiu sobre ela, procurou o jovem de ontem e lá estava ele, vivo, dormindo em sua cama. No entanto Morte não estava por perto.

Vida saiu da casa do garoto, buscou em diversas casas do bairro, mas não a encontrou. Estava fazendo sua ultima tentativa nas casas na proximidade quando entrou numa na qual a TV havia sido deixada ligada, o noticiário informava algo urgente. Ela parou para assistir, se fosse um desastre natural, um terremoto, um ataque terrorista Morte certamente estaria por lá.

As palavras da jornalista conseguiram surpreender Vida, ela informava que ninguém sabia o motivo, mas que hoje não fora sido perdido no mundo uma vida sequer. Imediatamente Vida resolveu ir ao ultimo lugar em que pensou que Morte estaria. O lugar que ela supôs que Morte nunca mais voltaria, o lugar onde elas acreditavam ter surgido, seu medo havia se tornado realidade.

Quando entrou no quarto escuro teve que abafar um grito, o quarto que antes dividira com Morte, antes mesmo de a humanidade surgir, agora servia apenas como cenário para uma cena de crime. A foice de morte se encontrava jogada no chão, sob ela o vestido que Morte sempre usava, com algumas manchas vermelhas.

Os olhos de Vida lacrimejaram. Lentamente ela se abaixou e tocou a foice, não só o poder de Morte fluiu através dela como também a memória e os sentimentos. O nascimento, os grandes acontecimentos em que teve que trabalhar e o fato mais recente, o incêndio. O momento em que ela avistou o garoto saindo da casa e dentro dela um sentimento começou a surgir, os dias em que desejara ser mortal para poder estar ao lado do garoto, o momento em que decidira levar a alma do jovem para que ele pudesse “viver” junto a ela.
Vida saiu do quarto, carregava agora duas foices, era a Vida e a Morte num único ser. Por sorte ela veio até mim, e me pediu para relatar essa história. “Ela”, talvez me leve quando eu acabar, ou talvez apague minha memória, mas agora que sei dessa história posso afirmar que muitos se lembram desse dia como o dia em que não houve mortes no planeta, mas eu me lembrarei desse dia como o dia em que a Morte morreu por amor. 

sábado, 24 de março de 2012

Pedro


Pedro acabara de sair de seu trabalho, o relógio da Av. Paulista marcava 20h. Pedro caminhava lentamente, usava um terno preto e sapatos sociais, a usual camisa branca estava por dentro da calça e sua gravata mostrava o homem de negócios que ele era.

Após alguns minutos caminhando parou numa das lanchonetes da avenida, sentou-se à mesa do fundo, sozinho. Não precisou pedir nada, a garçonete já o conhecia, não demorou muito e ela trouxe o seu cappuccino duplo. Ele ignorou o sorriso da moça, fitava o cappuccino, sem tocá-lo.

Seu olhar não estava ali, o vapor que subia do café quente lhe inundava a mente e trazia lembranças. Seu trabalho, depois a faculdade, a época de escola, a infância, e por fim uma imagem, dele bem pequeno, sentado a uma mesa com um homem mais velho, e por fim, escuridão. Estava de volta ao café. Tomava apenas um gole de seu cappuccino, pagava e ia embora.

Pedro fazia isso todos os dias, e depois voltava para seu apartamento. Morava sozinho, uma casa arrumada para alguém solteiro. No dia seguinte ele seguiu fielmente sua rotina, e no outro, e no outro... A sensação de que aquele homem podia ser o seu pai não o abandonava, quando criança sua mãe lhe dissera que seu pai havia sumido logo após que ele nasceu, porém aquela imagem o fazia ter certeza que seu pai aparecera, uma única vez.

Era o ultimo dia antes de suas férias, Pedro resolvera ficar até mais tarde no trabalho, o relógio já marcava 22h quando ele entrou na lanchonete.

- Pensei que não viria hoje. – foi o que disse a garçonete.

- Eu também. – murmurou de volta.

Ele se sentou no fundo como de costume, refletiu como de costume e bebeu apenas um gole. Mal havia se levantado quando entra na loja, um cara encapuzado e anuncia um assalto. Algumas pessoas gritam, outras tentam fugir, o assaltante saca uma arma e atira para o teto. Estavam presos.

Pedro agarrou o cappuccino, seu amuleto, seu símbolo, sua única lembrança. A lembrança naquele momento de tensão pareceu fluir em sua mente, ele lembrou-se do homem lhe pagando o café, dos risos que deu aquele dia, do modo como o homem afagava sua cabeça e o que ainda restava de duvida se foi, aquele era seu pai. A lembrança aflorava cada vez mais e ele se lembrou, seu pai naquele dia dissera a ele que se encontrariam no futuro, que ele tinha uma doença chamada câncer, na época Pedro não sabia o que era, e teria que fazer uma viagem muito longa.

Ouviu-se um estampido alto, um tiro. Pedro foi trazido à realidade. Algo o impedia de se mover. Via pessoas se aproximando dele, e no fundo, na entrada da loja, o homem com quem sonhara todos esses anos. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Saber que estão comigo me motiva a seguir em frente


Vídeo com texto de Vinicius de Moraes, um poeta que eu tenho orgulho de admirar:

"Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Música: A Nota Zero


Caminhava pela casa com uma flauta azul nos lábios. O avô lhe dera como recompensa pelas notas boas, e, desde então o pequeno estava sempre a tocar. Ou pelo menos ele pensava que tocava. Os seus sete anos e sua empolgação com o presente não lhe faziam perceber que o som era horrível.

Chegou à sala, seu pai estava acomodado na poltrona, de frente para a TV, concentrado no jornal. Assim que o filho entrou a expressão de serenidade do pai se alterou, há dias ele estava ouvindo o som incomodo do instrumento do filho sem reclamar.

- Edu... – começou o pai. – Que tal deixar a flauta descansar um pouquinho? – o pedido soou mais como uma súplica.

- Eu gosto de música pai. – respondeu o filho.

- Filho você nem sabe tocar ainda! – o pai já começava a pensar na hipótese de tomar a flauta do filho.

- Pai o que é música?

O pai estranhou a pergunta repentina do filho, mas, não ia deixar eu filho sem uma boa resposta.

- Música Edu... É uma forma de expressarmos o que temos dentro de nós. – disse o pai com o peito estufado.

O filho parou, olhou para o chão, coçou a cabeça, olhou para a flauta e respirou fundo.

- Então pai, dizendo que música é a forma de expressarmos o que temos aqui dentro. – disse o filho apontando para o seu próprio peito. – Por que o senhor esta tentando me fazer parar de tocar? Só por eu não saber as notas? Só pelo fato do meu som ser ruim? Eu toco despreocupadamente, toco sem me importar, eu assopro a flauta pai. O que eu, e muitas outras crianças temos dentro de nós é apenas vontade, alegria e pureza.

Dizendo isso o filho voltou a tocar sua flauta pelo outros cômodos da casa. O pai, no entanto, ainda boquiaberto e impressionado com o que o filho lhe disse sentou-se devagar em sua poltrona e voltou a assistir o jornal. Pensando, que a melhor solução, talvez fosse comprar um par de fones de ouvido.

terça-feira, 13 de março de 2012

Conversas de Trem


Dentro do trem encontramos diversas situações incomuns, desde ciclistas se fingindo de aleijado a aleijados se fingindo de ciclista. Eu sempre me diverti com isso, ria as escondidas para não “dar bandeira” aos outros. E foi num dia comum, voltando de uma festa, não tão sóbrio quando eu gostaria de estar, que presenciei uma dessas conversas de trem que me fez parar para pensar.

Eu embarquei as pressas, cambaleando e quase caindo, as portas já estavam se fechando, e acho que fui o último a entrar naquele vagão. Não estava cheio, mais já não havia mais lugares vazios, encostei-me à porta ao lado de um dos bancos.

Pensamento vai, pensamento vem e não me lembro de quando comecei a prestar atenção na conversa de dois senhores ao meu lado, e não sei se por efeito da bebida até opinar mentalmente eu opinava.

Falavam sobre futebol, não lembro os times, mas estavam comentando um lance polêmico que provavelmente viram num daqueles programas de domingo à noite em que vários comentaristas discutem alguma partida.

Pelo que entendi, ou o que a bebida me permitiu entender, um dos jogadores entrava na área com a bola, o defensor se aproximou para tomá-la e o atacante simulou um pênalti. O juiz enganado pela atuação do jogador apitou e apontou para a marca penal.

Discutiam ferozmente sobre o lance, e eu vendo o lance com outro olhar resolvi entrar na conversa.

- Já pararam para pensar que o lance não é muito diferente do que vivemos? Os jogadores brigam pela bola como partidos políticos brigam por votos, e no final quem venceu foi quem melhor soube simular.

Os senhores me encaram por um instante.

- Ignore, é só um desses loucos querendo chamar atenção. – disse um dos senhores, em alto em bom tom para ter certa de que eu ouviria.

Pensei em continuar a discussão, tentar convencê-los de que eu não era louco, mas o trem parou. Era a minha estação, havia chegado ao fim a minha viagem no trem, e dessa vez eu era para eles a situação incomum.

Sai triste, acho que a bebida não cumpriu o papel dela essa noite, enquanto caminhava para casa me perguntava se aqueles senhores ao menos haviam percebido que naquele jogo nos não seriamos apenas o juiz, seriamos também o goleiro.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Para Sempre...



Via apenas o rosto dela, e para mim isso era suficiente. Estávamos sentados sob uma árvore, o sol ainda não tinha nascido, estava escuro e ela havia adormecido. Meu tronco servia de apoio, e meus braços a envolviam. Não havia outra palavra para descrever o momento senão “perfeito”. Pousei a mão sobre sua cabeça, alisando seus cabelos, senti sua respiração mudar, ela ainda dormia, mas sabia que era a minha mão que a acariciava.

Enquanto esperava o momento de acordá-la quando minha mente foi inundada pelo cheiro do campo ao nosso redor. E sem que eu pudesse reagir a mim mesmo, comecei a pensar no real motivo de estarmos ali.

Eu a conhecera na primavera, ela viera conhecer nossa pequena cidade, na ocasião eu era o garçom que a servira no restaurante. Naquele dia não trabalhei direito, confundi os pratos dos clientes, anotei pedidos errados e derrubei inúmeros pratos. Descobri o que é amar nesse dia. De longe eu contemplava seus cabelos castanhos que escorriam por seu rosto delicado e singelo, seus olhos grandes e verdes, conseguiam me hipnotizar e só despertava quando alguém esbarrava em mim. Não era alta. Seu corpo se encaixava perfeitamente na roupa que usava, e a cada sorriso que ela dava a mesa com suas amigas era um salto que meu coração dava diante de tamanha beleza.

Pergunto-me se foi o destino, o acaso, a sorte... De qualquer forma, só tenho a agradecer por isso. Ela esquecera sua bolsa na mesa, eu a guardei esperando, e torcendo, para que ela voltasse para pegar. O restaurante havia fechado, eu havia resolvido ficar lá por mais um tempo, na esperança de que ela voltasse. As cadeiras já estavam empilhadas, eu tinha colocado um disco qualquer para tocar. Já estava quase desistindo de rever a moça quando ouvi batidas na porta, era ela.

Corri desajeitado para abrir a porta, ela sorriu e perguntou da bolsa, respondi que estava guardada e a convidei a entrar. Ela olhou para o chão e vi que as maças do seu rosto coraram. Meio sem jeito ela entrou no restaurante vazio, que agora parecia mais um salão. Ela girou sobre os calcanhares e me olhou nos olhos, novamente minha consciência se esvaiu perante seu olhar. Voltei à realidade quando ela me abraçou. De repente nossos corpos estavam juntos, pela primeira vez, não havíamos trocados muitas palavras e já estávamos dançando ao som da música que antes eu julgara qualquer, e agora defino como a melhor que já ouvi.

Naquele dia compreendi que o amor não é feito apenas de palavras, enquanto dançávamos ela dizia em meu ouvido que havia sentido o mesmo.
E de repente, senti um baque, não sei se realmente houve, apenas senti, e eu estava de volta à realidade. Os primeiros raios de sol já caiam sobre nós, beijei sua testa e ela acordou de imediato. O seu bom dia foi um beijo nos meus lábios, ela se ajeitou ao meu lado.

- Sentiu minha falta? – ela perguntou.

- Você não sabe o quanto. – respondi com um sorriso.

Ficamos em silêncio por mais alguns instantes. Não havia muito a ser dito. Voltei para o motivo de termos vindo aqui. Eu me lembrara de como a conheci, e também, me lembrei como eu era antes de conhecê-la, e nessa lembrança, vi novamente a solidão, exatamente como ela havia pedido para que eu fizesse.
Segundo ela só assim eu sentiria a solidão e a saudade que ela iria sentir, mas que assim, eu a levaria comigo, assim ela ficaria bem até nos encontrarmos novamente. Eu compreendi que certas coisas são eternas, que mesmo agora, perto do fim, todos os incontáveis anos em que estivemos juntos não se perderiam.

- Eu te amo. – foram as ultimas palavras que disse a ela.

Fechei meus olhos, ela apertou minha mão e se deitou novamente sobre meu peito. Meu coração lentamente começou a diminuir o ritmo, minha sensibilidade começou a diminuir e o ar, o cheiro e os sons do campo eu já não percebia mais, somente ela estava ali para mim. E de repente, tudo sumiu e me vi em escuridão total. Meu coração já não batia mais, eu já não estava mais lá, e ela provavelmente já tinha dado conta disso.
Ela... Mesmo sem as batidas do meu coração, mesmo em máxima escuridão ainda me lembrava dela, das vezes em que nos beijamos, outras em que dançamos e por fim das vezes que nos amamos da forma mais intensa. Uma luz em meio a escuridão se abriu, caminhei em direção dela, pensando, e torcendo para que ela pudesse ouvir, que eu a esperaria do outro lado.